Como acesso legal ao aborto nos EUA moldou a força da mulher no trabalho

Julgamento de 1973 estabeleceu direito constitucional ao aborto e catapultou mulheres no mercado; vazamento agora mostra que decisão pode...

revistabaiacu - 15 de maio de 2022




Quando Barbara Schwartz lembra de quando era jovem e trabalhava como assistente de palco na Broadway, o alvoroço da experiência vem à sua mente: os dançarinos estressados vestindo seus figurinos nos bastidores, os aderecistas passando com lanternas na boca. Segundo Barbara, ela foi capaz de se jogar nessa carreira cheia de pressão por causa de uma escolha feita em 1976. Ela fez um aborto em uma clínica que encontrou na lista telefônica. Isso aconteceu três anos depois que a decisão do caso Roe versus Wade estabeleceu o direito constitucional ao aborto.

Para Barbara, o mundo parecia cheio de novas oportunidades profissionais para as mulheres. Ela conseguiu um cartão de crédito com seu próprio nome, tornou-se uma das primeiras mulheres a entrar no sindicato local de contrarregras e se juntou àquele bando de gente nos bastidores de espetáculos como Cats e Miss Saigon.

Barbara, 69 anos, agora está aposentada e usa seu tempo livre para acompanhar mulheres até as portas de uma clínica de aborto na fronteira entre a Virgínia e o Tennessee. Ela decidiu se tornar voluntária, porque, em sua opinião, a promessa de seus 20 anos está perdendo força – consequência de leis que reduziram o acesso ao aborto, com um projeto de lei vazado da Suprema Corte na semana passada revelando que o veredito do caso Roe provavelmente será anulado. “Esta é a minha maneira de retribuir”, disse Barbara.

É assim que Ginny Jelatis, 67 anos, pensa a respeito disso também. Ela estava no último ano do ensino médio quando foi decidido o veredito do caso Roe v. Wade e começou a atuar como acompanhante para a clínica depois de se aposentar como professora de história em 2016. “Sinto que minha vida está perfeitamente cercada por essa questão”, disse Ginny. “Tornei-me adulta aos 18 anos e aqui estou, aos 60, ainda lutando por essa causa.”

Para mulheres como Ginny, que entraram na vida adulta no início dos anos 1970, o mundo do trabalho e das oportunidades estava mudando rapidamente. A participação das mulheres na força de trabalho passou de cerca de 43%, em 1970, para 57,4%, em 2019. Muitos fatores levaram as mulheres a entrar em maior número no mercado de trabalho naqueles anos, mas os pesquisadores argumentam que o acesso ao aborto foi decisivo.

“Não há dúvida de que o aborto legal possibilita que mulheres de todas as classes e raças tenham algum controle sobre suas vidas econômicas e a capacidade de trabalhar fora de casa”, disse Rosalind Petchesky, professora aposentada de ciência política do Hunter College, cuja pesquisa foi citada na decisão da Suprema Corte de 1992 no caso Planned Parenthood v. Casey, que reafirmou o veredito do caso Roe.

As mulheres que iniciaram a vida profissional logo após o caso Roe estão atualmente atingindo a idade de aposentadoria. Algumas delas, como Carolyn McLarty, veterinária aposentada, estão mais empenhadas do que nunca em sua defesa contra o aborto. Outras, como Barbara, olham para trás e sentem que suas carreiras estão em dívida com a decisão da Suprema Corte de 1973 e com as escolhas reprodutivas que ela possibilitou para as mulheres. Por isso, elas estão usando seu tempo livre para serem acompanhantes em clínicas de aborto.

A experiência dessas acompanhantes mais idosas, compartilhada em entrevistas ao longo dos últimos meses, demonstram o que o caso Roe significou para um grupo específico: mulheres que lutaram pelo acesso ao aborto quando estavam prestes a entrar na idade adulta e cuja vida profissional foi influenciada pelas oportunidades que elas acreditam que o veredito do caso Roe lhes proporcionou.

“Meu Deus, estão trazendo tudo de volta”, disse Debra Knox Deiermann, 67 anos, acompanhante em uma clínica na área de St. Louis. “Eu simplesmente não posso acreditar que as mulheres jovens não serão capazes de ter acesso ao que tivemos.”

Outras mulheres, que estavam começando suas famílias ou no início de suas carreiras como Roe, estão decididas a lutar arduamente contra o aborto legal. A vida adulta delas foi marcada por uma decisão que consideraram terrível na época e agora elas estão animadas em ver que o veredito provavelmente será anulado. De acordo com a Gallup, em 1975, 18% das mulheres entre 18 e 29 anos acreditavam que o aborto deveria ser ilegal em todas as circunstâncias. No ano passado, entre aquele mesmo grupo de mulheres, agora na faixa etária de 63 e 75 anos, o número era de 23%.

Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew de 2021 descobriu que 59% dos americanos disseram acreditar que o aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos, e 39% disseram que deveria ser ilegal em todos ou na maioria dos casos. Dados recentes do Pew indicam que as mulheres tendem a se posicionar um pouco mais a favor do aborto em todos os casos que os homens. E pessoas mais jovens, com idades entre 18 e 29 anos, são muito mais propensas que os adultos mais velhos a dizer que o aborto deve ser legal em alguns ou em todos os casos.

O Bound4Life, grupo antiaborto, estima que um quinto de seus voluntários são aposentados. O Eagle Forum, grupo antiaborto que tentar atingir todas as faixas etárias, calcula que a maioria de seus voluntários tem 55 anos ou mais.

“Elas são quase a única faixa etária que responde aos nossos e-mails e fazem algo quando enviamos alertas para ligarem aos políticos que elegeram”, disse Tabitha Walter, diretora política do Eagle Forum, em um e-mail para o New York Times.

Algumas são motivadas pelas gigantescas mudanças culturais e legais em relação ao aborto que testemunharam e, em alguns casos, impulsionadas ao longo de suas carreiras. “Vi a situação oscilar entre muito conservadorismo e a falta de controle rejeitando a Deus”, disse Carolyn, 71 anos, voluntária e secretária do conselho do Eagle Forum que já participou do Partido Republicano de Oklahoma. “A geração mais jovem está vendo como eles foram enganados em muitas coisas.”

Carolyn disse saber que as mudanças na lei do aborto ao longo de sua vida coincidiram com o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho. Mas, no que diz respeito a ela, Carolyn gostaria de ter dedicado menos tempo à carreira e mais à criação dos filhos.

“Olhando para trás, eu provavelmente teria passado mais tempo em casa”, disse ela, que trabalhava meio período quando seus filhos eram pequenos. “Há momentos diferentes em sua vida para capítulos diferentes.”

Os últimos 50 anos trouxeram uma série de mudanças culturais que facilitaram a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Novas tecnologias criaram novas funções administrativas, muitas delas exercidas por mulheres; as taxas de conclusão do ensino médio aumentaram; o estigma associado às mulheres casadas no local de trabalho diminuiu. Mas sociólogos e economistas defendem que o aborto legal é um fator singularmente importante, dando a muitas mulheres a opção de adiar o início de famílias e economizar dinheiro no início da idade adulta.

Pesquisas recentes tentaram entender o papel que o acesso ao aborto desempenha na vida profissional das mulheres. A mais conhecida é o estudo longitudinal Turnaway Study, realizado pela Universidade da Califórnia, em São Francisco. Os pesquisadores acompanharam dois grupos – um com mulheres que queriam e fizeram abortos e outro com mulheres que queria abortos e não conseguiu realizá-los – durante cinco anos e descobriram que aquelas que não conseguiam abortar tinham vidas financeiras piores. Quase dois terços daquelas que não puderam recorrer ao aborto estavam vivendo em situação de pobreza seis meses depois, em comparação com 45% das que passaram pelo procedimento.

A revogação do veredito do caso Roe significaria que as mulheres em todo o país enfrentariam um emaranhado de leis estaduais sobre o acesso ao aborto, com 13 estados prontos para proibir o aborto imediatamente ou em pouco tempo após a decisão do tribunal. É muito provável que haja uma correlação entre as regiões dos Estados Unidos onde é mais difícil fazer um aborto e aquelas com menos opções de creche e licença parental, de acordo com uma análise dos resultados da pesquisa pelo site de finanças pessoais WalletHub.

Para as mulheres mais velhas que acreditam ter conquistado estabilidade financeira devido à decisão de fazer um aborto, há relevância em compartilhar suas histórias com as mulheres mais jovens que conhecem nas clínicas hoje.

“As pessoas mais velhas com quem trabalho podem se lembrar daquele temor de ‘Meu Deus, e se isso acontecer comigo?'”, disse Debra, que passou a maior parte de sua carreira trabalhando em defesa da saúde reprodutiva.

Muitas voluntárias nas clínicas, como Debra, lembram-se de quando suas colegas de classe e amigas fizeram abortos ilegais. Contar essas histórias parece mais urgente do que nunca.

Karen Kelley, 67 anos, enfermeira obstetra aposentada de Idaho, que trabalha como voluntária em uma clínica de aborto, passou a infância concordando com o ponto de vista contrário ao aborto de sua família católica. Então ela se viu grávida aos 20 e poucos anos, sem condições financeiras para sustentar um bebê. Percebendo que a maternidade poderia “inviabilizar todos os seus sonhos”, ela optou por interromper a gravidez, cerca de seis anos depois do caso Roe.

Essa é uma memória que Karen conta para as mulheres que ela acompanha até os degraus da clínica. “Quando me perguntam, sempre sou honesta e digo que entendo como elas estão se sentindo porque fiz um aborto e elas têm todo o direito de tomar a decisão”, disse ela.

E algumas mulheres mais idosas disseram que a situação na qual se encontravam agora – aposentadas, com reservas financeiras e estabilidade – era algo que podia ser atribuído ao veredicto Roe.

“Isso nos deu a chance de decidir nos casar e ter uma família mais tarde”, disse Eileen Ehlers, 74 anos, professora de inglês aposentada e mãe.

O que o veredicto Roe lhe deu, afirmou, é algo que ela pode retribuir agora com o trabalho voluntário: “Temos tempo”.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA