Como sucesso do TikTok e afins criou uma nova Guerra Fria dos apps

Crescimento do app da Bytedance e outros aplicativos como Kwai e Shein demonstram que apps chineses têm ganhado força...

revistabaiacu - 5 de agosto de 2022
Como sucesso do TikTok e afins criou uma nova Guerra Fria dos apps



Estamos presenciando um momento muito importante para o mercado dos aplicativos: o crescimento mundial do TikTok. No ano passado, a plataforma App Annie constatou que a rede social da chinesa Bytedance se tornou o app mais baixado no mundo em 2020. Com isso, força uma perda de mercado no rival norte-americano Meta, dona do Facebook.

Em julho, a Meta também registrou queda de 1% na receita da companhia, marco inédito para a empresa. O crescimento do TikTok, somado a outros apps chineses em ascensão, como Shein (e-commerce), Shareit (envio de arquivos) e Likee e Kwai (vídeos), levanta a hipótese de uma “invasão chinesa” no ecossistema mundial de apps, que por anos teve hegemonia norte-americana.

Em termos de realidade brasileira, não apenas o TikTok é um grande sucesso, como o Kwai vem impulsionando uma onda de novelas de baixo orçamento, e a Shareit já tem escritório no país.

Alice Lana, coordenadora de cultura e conhecimento na InternetLab, diz que essa geração usa o TikTok até mesmo como um substituto do Google, para buscar recomendações. “Na economia de atenção em que vivemos, a popularização de um aplicativo pode acabar prejudicando outros, algo semelhante ao que ocorreu com o Snapchat depois que o Instagram incorporou o uso dos Stories”, exemplifica. 

O TikTok não funciona na China, mesmo sendo da empresa chinesa ByteDance. No país de origem, o app similar é o Douyin, com uma base de 600 milhões de usuários por mês. Outras big techs orientais brigam em números com as norte-americanas, como a Didi (dona da braisleira 99), Alibaba, Baidu e Tencent. A rede social WeChat levou a Tencent a superar o valor de mercado do Facebook em 2017.

Dinheiro à parte, há uma grande barreira para essas plataformas no Ocidente: o próprio governo da China. Por conta do regime político-econômico do país, é comum que apps com grande uso local se sujeitem à regulação local, o que freia sua popularidade no Ocidente. Novamente a Tencent é um dos maiores alvos: enfrenta uma potencial multa milionária por violação de regulamentos do banco central chinês com o sistema de pagamentos digitais WeChat Pay.

Outra questão é a delicada relação das plataformas chinesas com o governo dos EUA, que há algum tempo suspeita do TikTok entregar dados pessoais dos norte-americanos ao governo chinês. Recentemente a Bytedance admitiu que seus funcionários de fora dos EUA, incluindo os que estão na China, podem acessar os dados de usuários americanos. 

Recentemente, o Instagram modificou suas configurações de interface para testar o formato da tela cheia, como no TikTok, mas o teste não rendeu bons resultados. Famosos como Kim e Kylie Kardashian reclamaram, pedindo para que “o Instagram voltasse a ser Instagram”. Até mesmo uma petição online com 235 mil assinaturas solicitava o retorno ao formato anterior. 

O retorno foi tão negativo que CEO do Instagram, Adam Mosseri, suspendeu temporariamente o teste do aplicativo em tela cheia, além de diminuir o número de recomendações automatizadas no feed.

Essa inclusão e retirada constante de ferramentas, além de mudanças na interface dos aplicativos, é uma tentativa de atrair e reter novos usuários. Quando comparados, o número de usuários novos do Tik Tok hoje em dia tem um perfil de crescimento bem maior que o de plataformas da Meta, conforme explica Lana. 

Segundo os pesquisadores ouvidos pelo Terra Byte, o algoritmo do TikTok funciona de um jeito diferente dos algoritmos de outras mídias sociais. Para Lana, ele “fura a bolha”, não deixando que os conteúdos cheguem a ficar repetitivos e entediantes.

O algoritmo do TikTok também conta com uma vantagem para domesticar o seu algoritmo: o alto uso da página “For You”, que mostra conteúdos que a pessoa pode gostar. Seu sucesso tem inspirado o Facebook a oferecer mais conteúdo de curadoria por inteligência artificial no Instagram, o que não caiu bem entre seu público — pelo menos até agora.

“Em uma estrutura bastante viciante, o algoritmo [do TikTok] com frequência sugere algo novo e mede, dentre outros elementos, o seu tempo de visualização do vídeo, quantidade de curtidas, etc, para afunilar e aperfeiçoar o perfil do usuário”, diz a coordenadora do InternetLab.

“Plataformas como o Instagram precisam de pessoas conhecidas do usuário para que seu engajamento seja incentivado. No TikTok, porém, o conteúdo é mais independente de seu autor. O nicho da postagem, expresso pelas hashtags, ou a trend do qual ela faz parte, são fatores mais importantes”, analisa Victor Barcellos, pesquisador de Mídias do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio).

Ele também vê essa tendência a partir de dois fatores: a relevância da Geração Z, que apresenta comportamentos online muito próprios; e a preocupação com a privacidade e proteção de dados. O Facebook perdeu credibilidade nesse sentido após o escândalo da Cambridge Analytica, de 2018, onde dados pessoais de milhões de usuários do Facebook foram usdos indevidamente em estratégias políticas.

Ainda que as empresas tenham que passar pelas regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), tanto os Estados Unidos quanto a China são acusados de violar a privacidade de dados pessoais nacionais e estrangeiros. 

Os Estados Unidos lidaram há alguns anos como o supracitado caso da Cambridge Analytica e o de Edward Snowden, com a agência estadunidense NSA espionava desde pessoas comuns até líderes de estado.

Porém, Lana traz uma ressalva para o caso asiático: “Há uma preocupação especial com o tratamento de dados na China em função do poder e da influência do governo chinês na estrutura das grandes empresas chinesas”.

“Como cidadãos de um país do Sul Global, como o Brasil, corremos o risco que nossos dados pessoais, mesmo com a LGPD, não estejam sendo tratados com o cuidado dispensado aos dados de cidadãos dos EUA ou União Europeia”, alerta Lana. Oficialmente, tanto a Meta/Facebook quanto a Bytedance/TikTok afirmam estar em conformidade com Lei Geral de Proteção de Dados.