Dia de Preto Velho, como surgiu essa figura cultuada nos terreiros de Umbanda

Entidade tem uma história ligada ao perdão e aconselhamento, que se mistura com a história da formação do povo...

revistabaiacu - 13 de maio de 2022
Dia de Preto Velho, como surgiu essa figura cultuada nos terreiros de Umbanda



Escrever sobre Preto Velho não é uma tarefa simples. Não porque sejam entidades difíceis de compreender. Ao contrário, o complicado é tentar resumir o conhecimento e as tradições de uma religião que quase não tem registros escritos, nem posições hierárquicas fortes, como o catolicismo.

Na Umbanda, religião afrobrasileira que significa “arte de curar”, segundo o vocabulário quimbundo, de Angola, os Pretos Velhos são as entidades que melhor sintetizam os princípios e valores. Sacerdotes umbandistas ouvidos pelo Terra usam os termos “conselheiro”, “guia”, “orientador” e “conciliador” para caracterizar a importância dessas entidades para a religião.

A Mãe de Santo Taiane Macedo, conhecida como Mãe Tai, explica que a figura do Preto Velho guarda uma conhecimento muito duro da realidade da vida na Terra: a escravidão. A tradição umbandista ensina que essas pessoas foram, em sua maioria, negros escravizados; muitos deles trazidos direto da África e que precisaram aprender a viver de outro modo, em outro país, sofrendo os horrores da escravidão.

No primeiro registro que se tem de um médium que incorporou um Preto Velho, por exemplo, as lembranças dessa experiência foram bem nítidas. O espírito desencarnado não quis uma cadeira para sentar. Mãe Tai explica: “Ele pediu um toco, pois na cadeira quem sentava era o senhor”.

Apesar de terem encarnado em um período violento, os Pretos Velhos são definidos pelo perdão e caridade. Eles não negam ajuda a quem pedir e têm muito a ensinar. Mãe Tai acrescenta que os Pretos Velhos são espíritos de “alta iluminação”.

“O fato deles terem sido escravizados, e mesmo assim estarem hoje aqui trabalhando pra qualquer um, branco ou preto, sem distinção, isso já é de uma humildade de um amor incondicional e muito grande”, define Mãe Tai, que reforça: “Não adianta entrar em um terreiro, tomar benção, fazer uma consulta com Preto-Velho e lá fora você ser racista, homofóbico e machista. Isso não cabe dentro da Umbanda”.

O sacerdote Pai Rafael Dyá, de Fortaleza, reforça que a benevolência é um ensinamento significativo dos Pretos Velhos.

“Quando a gente cresce em uma família espiritualizada, a gente não paga o mal com mal; a gente só oferece o bem. Então, quando você desencarna, leva essa consciência, não leva a amargura, a tristeza. Foi isso que o Preto Velho fez, não levou o ódio ou a raiva”, explica.

O dia 13 de maio é marcado não só pelo dia em que foi assinada a abolição da escravatura em 1888, mas também é o dia em que se celebra o Dia do Preto Velho. Um caso tem relação com o outro, de fato. Por outro lado, há outras explicações para o motivo da data ser associada à entidade. 

O Pai Rafael Dyá cita a devoção à Nossa Senhora de Fátima, também celebrada em 13 de maio. Segundo ele, quando os negros escravizados chegaram ao Brasil, tiveram que aprender outra religião e passaram a se tornar devotos de Maria, a mãe de Jesus. 

Essa devoção pode ser explicada pela similaridade entre a vida dos escravizados e a história contada pela tradição católica. Nossa Senhora também foi exilada de seu país de origem e foi perseguida.

“O Preto-Velho que eu recebo, Joaquim, é devoto da Imaculada Conceição, por isso meu terreiro tem esse nome”, conta Pai Rafael.

Essa mistura da tradição africana, da cultura portuguesa e dos hábitos e crenças brasileiros resultaram na figura do Preto Velho. Pai Rafael resume o Preto Velho como o próprio Brasil.

Por outro lado, o Preto velho é também sabedoria. Na manutenção da tradição de aconselhamento com os antepassados, essa entidade orienta e ajuda seus filhos através de conselhos, orações, benzimentos, banhos e ervas.

De acordo com Mãe Ely, sacerdotisa baiana da Umbanda, a função de aconselhamento é tão forte que os Pretos Velhos são chamados de “psicólogos da Umbanda”. O objetivo é sempre que quem visite o terreiro saia melhor do que entrou. 

“É um divino, de cura, que está aqui na terra para orientar os visitantes, direcionar para um caminho de cura”, explica.

Mas a conciliação e a melhora individual não são as únicas coisas a agradar os Pretos Velhos. Assim como ocorre com outras entidades, as casas de Umbanda também oferecem rituais e itens para as entidades. No caso dos Pretos Velhos, a tradição manda oferecer mingau de milho, tapioca, bolo de fubá, cuscuz temperado, pipoca, cocada, café e outros alimentos que eram consumidos no período colonial no Brasil.