Fake news e difamação ‘não são monopólio da direita’, diz Tabata Amaral

Principal aposta do PSB na disputa à Câmara dos Deputados em São Paulo, a deputada Tabata Amaral ...

revistabaiacu - 5 de agosto de 2022




Principal aposta do PSB na disputa à Câmara dos Deputados em São Paulo, a deputada Tabata Amaral teve uma longa reunião com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes de anunciar o apoio ao petista na corrida presidencial. Tabata foi uma das principais vozes de oposição à entrada do PSB na federação composta por PT, PCdoB e PV, o que de fato não se confirmou. Após o encontro com o ex-presidente e sua mulher, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, a deputada se diz confortável na condição de aliada a ele. “Apoiar o Lula é sobre estar do lado certo”, disse.

Eleita com 264.450 votos em 2018, representando à época o PDT, Tabata foi a sexta deputada federal mais votada no Estado. Mas o partido de Ciro Gomes rompeu com a parlamentar após ela votar a favor da reforma da Previdência.

Filha de uma diarista e um cobrador de ônibus, Tabata afirmou ao Estadão que foi alvo de fake news e ataques de lideranças de esquerda com quem vai dividir palanque nesta campanha.

Nascida na periferia de São Paulo, Tabata Amaral tem 28 anos, é formada pela Universidade Harvard (EUA) e coordenou o programa de governo de Márcio França antes que ele optasse por concorrer ao Senado em vez do Palácio dos Bandeirantes. Agora, é ela quem desponta como um dos principais nomes do partido para a sucessão do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). Confira a entrevista a seguir.

Depois de se posicionar contra a federação PT-PSB, a senhora se sente confortável no palanque de Lula?

Isso tem a ver com ter coragem e lucidez no momento histórico que estamos vivendo. Estou com o coração muito tranquilo. A gente está vivendo um dos momentos mais desafiadores da história do nosso País. Eu poderia trazer mil anedotas, mas o show de horrores que foi isso do Bolsonaro convocar embaixadores para questionar as eleições e as urnas é um pequeno exemplo. Apoiar o Lula é sobre estar do lado certo.

Como foi a sua relação com o campo da esquerda ao longo do mandato na Câmara?

Eu sou progressista, e por estar na luta da renda mínima, pela educação pública e pelos direitos das mulheres, tenho muito mais concordância do que discordância com a esquerda. Mas, por razões estratégicas e de disputa de poder, eu recebi muitos ataques (da esquerda). Infelizmente fui alvo de ataques com fake news tanto da esquerda quanto da direita. Para mim é muito claro que a visão de mundo que eu defendo faz sentido para boa parte da população. O combate à corrupção não é uma pauta só de direita. Dá para conciliar o fiscal com o social.

Vai estar nos palanques do Lula fazendo campanha com ele?

Não tive nenhum convite específico, até porque essa campanha está se dando principalmente fora de São Paulo. Mas vou estar aqui nos palanques com Haddad, Márcio França e nossos candidatos a deputado estadual.

Seu eleitorado aceitou essa opção de estar com Lula?

Venho sentindo uma grande compreensão. Estamos falando de um governo que nos trouxe a uma situação com 30 milhões de pessoas passando fome, que todos os dias se coloca contra as mulheres e que acabou com a economia. As pessoas entendem a gravidade do momento, que precisamos derrotar o Bolsonaro nas urnas.

Por que foi contra a federação entre PSB e PT?

Porque o Brasil comporta um segundo partido de esquerda em tamanho, que é o PSB. O Brasil precisa de uma centro esquerda democrática que olha pra frente e se baseia na experiência do socialismo em Portugal e Espanha, e não no passado. O PSB tem história, quadros e um programa de País. Se a gente tivesse feito a federação, o PSB seria uma sublegenda do PT. O PSB é importante de mais para virar uma sublegenda. Mesmo quem era contra acha hoje que foi uma decisão acertada.

Na contramão dos partidos de esquerda, a sra. votou à favor da reforma da Previdência e isso abriu uma crise com seu antigo partido, o PDT. Como foi lidar com as críticas?

Recentemente, eu ouvi um argumento que fez muito sentido pra mim, pena que não me disseram há 3 anos. Da mesma forma que a gente defende o Sistema Único de Saúde, acho contraditório que a esquerda defenda que dentro do sistema previdenciário algumas pessoas tenham privilégios só porque o lobby delas é mais poderoso. O que a gente fez com a reforma da Previdência foi justamente acabar com os privilégios, por exemplo, de políticos que se aposentavam com R$ 40 mil por mês, mas também igualar as condições de quem tinha uma aposentadoria mais favorável às pessoas mais humildes. Para mim, esse é um voto de esquerda. Minha mãe foi diarista e meu pai cobrador de ônibus. Meu voto à favor da reforma da Previdência foi um voto de esquerda. A esquerda tem de olhar para a empregada doméstica, para o pedreiro, que são as profissões da minha família, e não ficar sempre olhando para quem consegue se mobilizar e fazer barulho em Brasília.

A senhora foi muito comentada após votar no PL 4188, que permite que bancos e instituições financeiras possam penhorar imóveis únicos de famílias para quitar dívidas. Foram muitas as críticas por quem hoje está ao seu lado. Houve um erro ali?

Infelizmente, fake news e difamação não são monopólio da direita. algumas pessoas do campo da esquerda se valeram de um erro em uma votação menor, que foi corrigida logo na sequência, para espalhar fake news de que eu tinha votado a favor desse projeto. Provei que era fake news e que as pessoas usaram de má fé. Não dá para comparar isso com a máquina de ódio do bolsonarismo hoje, mas fake news, ameaça e essa violência toda também existem no campo da esquerda. E isso também é mais feroz contras as mulheres no campo da esquerda. O machismo é a coisa mais suprapartidária do Brasil.

Vai abrir mão do fundo eleitoral?

Defendo que ninguém tenha no seu financiamento de campanha uma fonte que corresponda a mais que 10%, seja doação própria ou de um partido. O que usar de fundo eleitoral não vai ultrapassar os 10% do financiamento. Sou contra o tamanho do fundo e votei pela sua redução. E sou contra a forma como é distribuído. Você destinar milhões para quem tem mandato não é democratizar as eleições.

Fez algum pedido especial ao Fernando Haddad para apoiá-lo?

Fiz dois pedidos. Um foi que ele recebesse o plano de governo do PSB, que eu fui a coordenadora. Ele se comprometeu a integrar esse plano. E fiz outro pedido bastante direto: que metade do secretariado fosse composto por mulheres.

Haddad topou?

Ele topou. Agora estou cobrando esse anúncio público.

Lula e o PT se comprometeram a apoiar a candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) à Prefeitura em 2024. A senhora pretende apoiar essa chapa?

O PSB não tem nenhum acordo com o PT e o PSOL para as eleições de 2024. Vamos calma.

O PSB ventila seu nome na capital. É uma possibilidade?

É uma possibilidade que será discutida depois das eleições. Precisamos de um pouquinho mais humildade neste momento.