Inclusão e transparência: jovens LGBTQIA+ sabem o que buscam em candidatos

Grupo, que votará pela primeira vez em uma eleição presidencial, bateu recorde de emissão de títulos eleitorais

revistabaiacu - 22 de junho de 2022




Mesmo sem obrigação legal de votar, a estudante Alice Lopes, de 17 anos se juntou aos mais de 2 milhões de jovens de 16 a 18 anos que emitiram o título de eleitor neste ano e se prepara para escolher seus candidatos no pleito de outubro. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que o número de novas emissões entre janeiro e abril de 2022 aumentou 47,2%, em comparação ao mesmo período de 2018.

“A participação na política é muito importante. É o meu país e estou zelando por ele. Não adianta eu querer algo e não fazer nada para isso acontecer”, justifica a estudante.

A presença dos jovens na política, principalmente os membros da comunidade LGBTQIA+, foi incentivada em uma campanha maciça nas redes sociais, como também na 26ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, realizada no dia 19 de junho. O evento, que reuniu mais de 4 milhões de pessoas na Avenida Paulista, teve como tema ‘Vote com Orgulho – Por uma Política que Representa’

A decisão de Alice em exercer sua cidadania é incentivada dentro de casa, pelos próprios familiares, que a estimulam a procurar os candidatos que se alinhem às suas expectativas. Apesar da pouca idade, ela já sabe o que busca: um candidato respeitoso, que priorize pautas em saúde, educação e economia. 

“Estamos em um país miscigenado, somos muito diferentes”, diz.

Quem também segue a mesma linha de pensamento é a estudante Ana Alice Mônico de Sales, de 19 anos. Além das pautas já citadas, que considera pilares da sociedade, ela também busca transparência entre os candidatos.

“Não dá pra ser totalmente transparente, mas quero alguém que entenda o povo, que cumpra o que fala e que ajude os necessitados”, diz

A estudante, que divide seu dia entre a faculdade de Publicidade e Propaganda e o trabalho em uma agência, admite que não se informa ativamente sobre política, mas tem noção do que acontece por “osmose”.

“Não busco nada, mas sempre chegam notícias até mim”, admite. 

A expansão da política dos meios de comunicação tradicionais, como rádio e televisão, para as redes sociais impactou de maneira positiva o engajamento de jovens no exercício da cidadania. O pesquisador Daniel Vianna Vargas, coautor do livro ‘Eleições Brasileiras’, avalia que esse efeito mudou também a forma como a política é tratada fora do período eleitoral. 

“O que antigamente, que a gente via de participação política, só de dois em dois anos e fora isso se esquecia, o jovem acaba por trazer de forma muito mais frequente e cotidiana. Isso é pela sua própria forma de comunicação, que é muito mais direta e imediata, através de redes sociais”, explica.

A equipe de reportagem do Terra procurou, durante alguns dias, jovens que se identificassem LGBTQIA+ e alinhados aos ideais de centro, de direita e de esquerda. Um formulário online foi aberto para mapear pessoas com esses perfis, mas apenas jovens que se dizem de esquerda responderam às perguntas e se disponibilizaram a falar sobre o que procuram na política.

Esse cenário reflete a presença de candidatos assumidamente LGBTQIA+ nos Poderes Executivo e Legislativo. Nas eleições de 2020, candidatos dessa comunidade nos partidos de centro eram 22% do total, enquanto que nos partidos de direita o número era ainda menor: apenas 13%. Os dados são do Relatório Vote LGBT+.

O pesquisador Daniel Vargas alerta para o apagamento de definições pré-estabelecidas, já que os jovens não teriam tanto interesse em se enquadrar em padrões antigos e que podem ser interpretados por eles como “defasados”, como a classificação ideológica divida entre esquerda, centro e direita. 

“Esses conceitos, eles tendem muito provavelmente a desaparecer no futuro. O jovem deseja ser tudo ao mesmo tempo, não apenas uma coisa”, acrescenta.

Se essa é a tendência, existem jovens que estão certos do que buscam. É o caso da estudante de Jornalismo Clara Cristiane Saraiva, de 18 anos, que se envolveu com a política após as últimas eleições presidenciais, em 2018, que culminou com a vitória de Jair Bolsonaro, na época do PSL.

Membro da União da Juventude Socialista e do Centro dos Estudantes de Santos, Clara é engajada com o assunto e está sempre presente em manifestações, protestos e atos políticos na região onde vive. Para as eleições, ela preza por um candidato que priorize inclusão social e racial, bem como investimento às escolas e universidades.

Apesar de já ter um nome para a Presidência, a jovem ainda não sabe em quem votar para os outros cargos que também disputam neste ano — governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

“Estou aguardando a situação dos políticos que vão concorrer ser definida”, diz.