Lázaro Ramos: 'O ano de 2022 vai demorar para acabar em nós'

Lázaro Ramos: 'O ano de 2022 vai demorar para acabar em nós' Confira!

Lázaro Ramos: ‘O ano de 2022 vai demorar para acabar em nós’

Em texto escrito especialmente para o 'Estadão', ator observa que 2023 começa com novo plano de convivência coletiva

Lázaro Ramos: ‘O ano de 2022 vai demorar para acabar em nós’
Imagem: Reprodução | Divulgação



O ano finalmente termina. E termina como se tivéssemos corrido uma maratona. Uma maratona, diga-se, com conflitos éticos, estéticos, políticos, sociais, econômicos e, principalmente: relacionais. Pensei em escrever esta coluna num tom motivacional, pois me parece que é disso que precisamos: retomar o fôlego para iniciar mais uma… maratona.

Escrever, no entanto, um texto motivacional, não me exime de perguntas. E a primeira que me vem à cabeça é: como motivar se ainda não conseguimos, minimamente, nos comunicar? A resposta – ou o fato – é que somos cada dia mais influenciados por sensações e atitudes extremas. Quantos de nós partimos, mesmo que inconscientemente, para apelos tais quais memes ou batidas na mesa? Sim, nós fazemos isso para tentar que sejamos vistos já que falas equilibradas e ponderadas, definitivamente, não estão mobilizando – ainda mais em ano em que aconteceu um turbilhão de coisas.

Ah, e como presenciamos acontecimentos! Houve eleição, Copa, ainda covid, consumo de streaming versus TV aberta. E lamentamos a perda de Elza Soares, Erasmo Carlos, Gal Costa, Milton Gonçalves, Jô Soares e tantos outros que sempre foram companhia em momentos de alegria, luta, dor ou relaxamento. É, 2022 vai demorar a acabar em nós porque nós demoraremos muito tempo para processá-lo.

Afinal, como motivar com tanto ainda a entender e a fazer? Principalmente quando a motivação tem muito a ver com saber que teremos trabalho para construir esse País neste momento que vivemos? Sim, a palavra é construção porque ainda estamos sendo erguidos mesmo que a solavancos. Resumo da ópera: neste momento, a motivação não está associada a descanso e prazer.

Um balanço pessoal que corrobora com o que escrevi acima: na minha trajetória neste ano, lancei o longa Medida Provisória, que superou todas as minhas expectativas, pois era um filme que misturava comédia, thriller e drama levando sorrisos, mas também relembrando dores que a gente quer esquecer, já que a luta antirracista está presente na obra. Protagonizei ainda o filme Papai É Pop querendo pensar sobre o modelo de pai que queremos nos tornar: livre das amarras de uma paternidade ausente e pouco afetuosa. É um filme de que muito me orgulho, mas que – verdade seja dita – foi mais escutado pelas mulheres do que pelos próprios homens na sala de cinema.

Termino o ano com um livro adolescente chamado Você Não É Invisível, para falar sobre autoestima e refletir um pouco sobre o tempo da pandemia, mas, sobretudo, para falar sobre como é importante melhorarmos a maneira de nos comunicar. Acredito que pude levar entretenimento, mas também consegui fazer com que despertemos para a luta e para o trabalho.

Tenho ainda a crível sensação de que fazemos parte de uma geração de transição. Uma geração de entraves, de disputa de território, disputa de narrativa, de prioridade. Logo, até chegarmos a um país sem racismo e livre da desigualdade, com que tanto sonhamos, a motivação terá de ser o trabalho. Para isso talvez seja necessário esquecer um pouco o futuro, mesmo porque é algo que não temos a certeza de que viveremos. O que temos certeza é do hoje e do que podemos fazer hoje; de como podemos melhorar uma situação hoje e, doravante, de como podemos ser justos… hoje. E para além disso – olha como dá trabalho – temos de tentar não viver na angústia enquanto procurarmos a vitória. A grande vitória talvez seja celebrar as pequenas conquistas e, a partir delas, gerar forças para dar o passo seguinte.

No dia 1.º de janeiro, começa um novo ano, um novo governo, um novo plano de convivência coletiva. E também um novo ano que vai exigir mais sabedoria, incluindo a sabedoria de estarmos atentos aos processos democráticos, de fiscalizar e de manifestar para que possamos avançar. Com autoconhecimento e conhecendo sempre e mais o nosso coletivo. Trabalhemos, pois, repito, não será um ano de descanso, mas sim uma nova chance de construirmos um Brasil merecido.

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