Metallica: para além das divas pop, gays também curtem heavy metal

Repórter Reginaldo Tomaz conta em detalhes a realização do sonho de infância ao curtir o show do Metallica em...

revistabaiacu - 14 de maio de 2022




Rolou no início da semana o show do Metallica, em São Paulo. A passagem da banda pelo Estádio do Morumbi foi marcada por desmaios, drogas e muita pirotecnia. Em meio a essa salada de acontecimentos, um mar de fãs trajados de preto eu me encontrava de branco, com olhos atentos e ouvidos bem abertos, direto da pista premium. 

Quando se pensa no público de uma banda de heavy metal, logo deve vir à cabeça um estereótipo: homens grandes, com estilo motoqueiro selvagem e que costumam demonstrar agressividade ao se comunicar; as mulheres também tem sua identidade marcante, como tatuagens e piercings. Apesar da regra, existem exceções nesse universo, como eu, homem cis, branco, gay, que consome cultura pop e escreve sobre entretenimento para veículos de comunicação. Raramente encontro semelhantes em espaços como esse.

Quem me conhece logo deve ter estranhado minha presença no concerto de metal. O motivo é óbvio e meu Spotify não deixa negar: divas como Lady Gaga, Madonna e mais recentemente Kali Uchis costumam reger o set-list do meu cotidiano. Entretanto, em paralelo ao amor pelo pop, existe essa veia latente e que, por conta de uma bifurcação não congênita, é capaz de despertar sentimentos bons e ruins em mim.

Para entender o funcionamento dessa veia, é importante retornar à minha infância, quando meu pai, altamente influenciado pelo pop e pelo rock dos anos 80 e 90, ouvia discos numa vitrola, em casa, aos finais de semana. A partir da experiência proporcionada pelo apetrecho musical, involuntária e relutantemente conheci e me afeiçoei a grandes artistas, como Aerosmith, Alice Cooper, Guns N’ Roses, Madonna, Abba, Kylie Minogue, Metallica e até mesmo Xuxa Meneghel – quem nunca vibrou com “Quem quer pão” que atire a primeira pedra. 

Lembro até hoje o dia em que acordei num domingo de tarde e, ainda sonolento, ouvi os primeiros riffs de “The Unforgiven”, faixa do “Black Album” (1991). As nuances da música e a voz de James Hetfield saindo pela vitrola de meu pai me hipnotizaram. Desde então, passei a gostar de um rock mais heavy, algo que fosse além dos vocais de Axl Rose e Steven Tyler, nada contra, inclusive nunca deixei de ouvir, mas estava à procura de mais: nessa jornada me aventurei por Megadeth, Judas Priest e Rammstein

Coforme cresci, fui me reconhecendo como homem cis, branco e homossexual, como se não bastasse esse combo, ainda nasci com o plus de ser afeminado. A partir da necessidade de me entender como pessoa na sociedade, durante a descoberta da sexualidade e entendimento como pessoa, acabei me aproximando mais de cantoras como Lady Gaga e Christina Aguilera, que ao longo de suas carreiras disseminaram mensagens de autoamor, de reconhecimento do diferente e da importância da diversidade, deixando essa veia paterna de lado, até porque, dores foram causadas nesse processo – mas isso é papo para outra história.

A questão é que existem aspectos que fazem parte de nós independente de querermos ou não. Por mais adormecido que a referência metal estivesse dentro de mim nesse processo de libertação, como gosto de chamar, ela sempre dava um jeito de mostrar-se visível como um traço de personalidade, seja no modo de me vestir, onde sempre opto por peças pretas ou brancas, raramente uma cor que destoe dessa paleta; seja na hora de decorar meu quarto e até mesmo o amor pelo motociclismo, paixão essa que não compartilho com quase ninguém do núcleo de amizades LGBTQIAP+, mas que remete muito ao público metaleiro. 

A verdade é que ir ao show do Metallica em São Paulo foi uma experiência diferente de tudo, carregada de medo à minha integridade física, afinal, a falta de LGBTs à vista me preocupou, pois a violência ainda é um cenário real, principalmente no Brasil; gatilhos, pois olhares foram sentidos e quem foi gay nos anos 90/2000 sabe bem a quais olhares me refiro; além de muita ansiedade, querendo ou não, eu estava prestes a conferir de perto ídolos da minha infância, cantando músicas que ouço até hoje nos fones de ouvido. 

A banda iniciou o show com ‘Whiplash’ e não deixou de embalar o público com ‘Master of Pupets’, ‘Atlas, Rise’ e ‘The Unforgiven’, que é tão marcante para mim. Após a apresentação me senti conectado com a minha infância, aquele papo de criança interior, senti como se tivesse feito as pazes com uma camada minha que por muito induzi propositalmente a uma espécie de coma.