Morre o escultor Nicolas Vlavianos, aos 93 anos

Nascido na Grécia, artista plástico chegou ao Brasil em 1961 e ficou marcado por suas esculturas feitas com ferro

revistabaiacu - 25 de junho de 2022
Morre o escultor Nicolas Vlavianos, aos 93 anos



O escultor e professor Nicolas Vlavianos morreu neste sábado, 25, aos 93 anos de idade. A notícia foi dada por sua filha, Myrine Vlavianos, em rede social. O velório e a cerimônia de cremação ocorreram na tarde deste sábado.

Ficou conhecido principalmente por seus trabalhos feitos com metais. Em depoimento à Fundação Marcos Amaro em 2017, falava sobre a importância do material em suas obras: “prensar, dobrar, furar, todos são atos que me permitem chegar a um resultado que, às vezes, pode até parecer surpreendente. Porque você pode polir, pode ficar rústico… Tem milhares de operações que você pode fazer com o metal.”

“Eu usei sempre o metal porque pra mim é muito importante. O aço inoxidável é um metal novo, que apareceu no século passado, mas ele não se altera. Tenho obras de 50 anos atrás, são iguais. Foram polidos uma vez, ficam polidos para sempre. Outros materiais são mais difíceis, podem quebrar mais fácil, o metal, não. Ele é quase eterno”, continuava.

Nascido em Atenas, na Grécia, foi morar em Paris em 1956, onde estudou escultura na Académie de la Grande Chaumière e participou de mostras como Salon Réalités Nouvelles (1958 e 1959), Artistes Grecs de Paris (1958) e Salon de la Jeune Sculpture (1959). Veio ao Brasil em 1961, para participar da 6ª Bienal de São Paulo, em que suas obras foram expostas na Sala da Grécia. Desde então, fixou moradia no País.

Desde seus primeiros momentos, já recebia elogios da crítica, como pode ser constatado em matéria de 16 de novembro de 1962, publicada no Estadão ( para ler a íntegra):

“Vale pela incorporação polivalente de campos referenciais sugestivos, numa acumulação dessa sugestividade, mediante uma das matérias mais brutas e mais duras. A escultura de ferro, além do emprego de pedaços domados de metal, incorpora ao seu contexto os pregos em seriação agressiva, criadora de uma nova determinação das arestas.

[…]

O artista insere-se na hora crítica da escultura com uma realização, nos seus bons exemplos, que participam do expressionismo e do surrealismo, para a formulação de uma linguagem.

[…]

Em Vlavianos, o declamatório é raro; na linhagem dos que são, como Consagra, anti-retóricos em escultura, na humildade do material, na colocação da escultura em qualquer posição no espaço, na asperidão dos acabamentos, este artista grego é um arcaico também, não um barroco. Arcaico no sentido histórico que se aplica a certo período grego: mas um arcaico do nosso tempo.”

Em entrevista ao Estadão, em 1993, Vlavianos refletia: “Há excelentes escultores que trabalham sempre uma obra só, em infinitas transformações; mas, para mim, o que dá prazer no ato criativo é a gente poder fugir de si mesmo, sem qualquer ortodoxia”.

Desde suas obras mais antigas, severas e recortadas sobriamente no espaço, passando por suas séries antropomórficas e as sugestões vegetais, inspiradas na realidade brasileira, ou rochosas, inspiradas em seus tempos de Grécia, o artista, que dizia ter uma obra “proteica”, contava com cíclicas mutações de forma e direção.

No mesmo ano, foi homenageado no MASP com uma retrospectiva de seus 35 anos de carreira, até então. À época, a instituição (assim como o Brasil, de forma geral, às vésperas da implantação do Plano Real) passava por uma crise. Conforme consta no Estadão de 27 de abril de 1993:

“Não há na arte de Vlavianos qualquer sombra de amargura, de rancor, de angústia ou de caos. Sempre foi e continua sendo limpa, equilibrada, apolínea e feliz. A infelicidade circunstancial fica restrita ao autor: ‘Cultura é uma coisa que neste momento não interessa a ninguém’.

Tanto que ele mesmo teve que bancar esta mostra, pagar o catálogo, recolher as obras, responsabilizar-se pessoalmente junto aos colecionadores pela integridade delas.

[…]

No fundo, ele conserva, como todo artista, a paixão pela obra e a necessidade de que ela cumpra na plenitude sua função. ‘Fazer arte é o último ato de esperança e, certamente, uma forma de tesão, uma variante do erotismo e do amor'”.

Um de seus trabalhos de destaque mais recentes se deu no ano passado. Em 2021, o piloto de Fórmula 1 Kimi Raikkonen recebeu do então governador João Doria um troféu em homenagem à sua carreira – sua despedida das pistas se deu naquele GP de Interlagos. A obra, intitulada Victory, foi produzida por Vlavianos, então com 92 anos. “A obra de Vlavianos é um emblema da vitalidade das artes visuais de São Paulo”, destacou o então secretário de Cultura estaudal à época, Sérgio Sá Leitão.

Em 2004, foi lançado o livro Vlavianos, A Praxis da Escultura, editado por Wagner Carelli, com textos de Walter Zanini, Aracy Amaral, Mario Pedrosa e Olívio Tavares de Araujo. A obra contava a trajetória do escultor e trazia alguns de seus trabalhos e desenhos.

Uma publicação compartilhada por Myrine Nazar Vlavianos (@myrinevlavianos)