Opinião: Bento 16 preparou o caminho para o papa Francisco

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Opinião: Bento 16 preparou o caminho para o papa Francisco

O primeiro papa alemão após 482 anos chegou ao trono de São Pedro como cardeal da Alemanha.

Opinião: Bento 16 preparou o caminho para o papa Francisco
Imagem: Reprodução | Divulgação



Bento 16 foi mais do um papa de transição. Morto aos 95 anos, ele prestou um enorme serviço a sua Igreja ao abdicar do trono papal e deu uma nova força ao pontificado, opina Christoph Strack. Não, revolucionário certamente Bento 16 – ou Joseph Ratzinger – não foi. Nem nos seus oito anos à frente da Igreja Católica (de 2005 a 2013), nem como jovem teólogo nos anos 1960, nem como arcebispo de Munique e Freising (a partir de 1977) ou como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (a partir de 1982).

Mas ele sempre foi um grande pensador e teólogo importante. Durante seus anos como papa, Ratzinger deixou isso claro como autor. Enquanto seu sucessor esbanja simpatia e carinho, muitas vezes libertando as pessoas ou as deixando perplexas, Bento 16 escreveu e ensinou. De 2007 a 2012, publicou a trilogia Jesus de Nazaré.

Em retrospectiva, parece que os oito anos de seu pontificado formaram a estrutura para esse caminho espiritual-teológico em direção ao centro. Desconsiderando uma ou outra escaramuça teológica interna tratada perifericamente por Bento 16, os três livros não são apenas uma leitura de fé e meditação, mas estão entre as melhores obras escritas sobre Jesus Cristo nas últimas décadas.

Papa da terra de Hitler, da terra do Shoa

O primeiro papa alemão após 482 anos, não devemos esquecer, chegou ao trono de São Pedro como cardeal da Alemanha. Da terra de Hitler, a terra do Shoa. Há fotos mostrando o jovem Ratzinger de uniforme. E, mesmo assim, 60 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o conclave elegeu esse alemão como papa. Isso diz muito sobre a alta estima da Igreja alemã e da teologia de língua alemã.

Nos oito anos em que ele esteve à sua frente, a Igreja Católica teve que lutar várias vezes com escândalos e alvoroços: a anulação da excomunhão de um negador do Holocausto, decisões infelizes na escolha de pessoal, estagnação no ecumenismo, mas acima de tudo a violência sexual dos clérigos contra menores de idade, encoberta por décadas.

Seria mais do que injusto culpar o papa alemão sozinho ou em parte pelos escândalos. Não é segredo que a dramática escalada do escândalo do abuso se deveu sobretudo ao fato de seu antecessor, João Paulo 2º, ignorar o fato. Outras crises tiveram origem por falhas de comunicação ou pelos estranhos envolvimentos no sistema do Vaticano.

Bento 16 foi um papa da transição. Esse atributo não deve de forma alguma diminuí-lo. Depois da badalação em torno do grande João Paulo 2º, em seus escassos oito anos no papado Bento 16 dirigiu novamente a atenção ao verdadeiro núcleo da doutrina da Igreja, à pessoa de Jesus Cristo, ao significado da Igreja como comunidade, ao valor da Eucaristia. Ele se ocupou de algumas falhas do aparato do Vaticano (ao qual ele próprio pertencera). Muito mais ficou por fazer.

Renúncia desafiou o sistema

Assim, a abdicação de Bento 16 em fevereiro de 2013 foi menos um sinal de fraqueza do que um gesto de humildade diante da grandeza do cargo e da dignidade da própria pessoa. O papa teólogo Bento 16 considerou esta decisão revolucionária durante meses e sabia que seria dramática. Ele voltou a fazer um exame completamente diferente da modernidade, com o mundo, como ele mesmo disse, “que muda tão rapidamente”.

Não havia como prever em 2013 os efeitos de seu passo, causando a impressão, no sistema romano, até o Colégio Cardinalício, de uma “ala de Bento” ao lado de uma “ala de Francisco”, o que tornou mais difícil o trabalho de seu sucessor. A surpreendente renúncia de Ratzinger desafiou o sistema, suas repetidas intervenções temáticas o colocaram em perigo.

Para dar esse passo, foi necessário um papa teólogo que amasse sua Igreja e se visse como seu servo. Bento 16 não foi revolucionário. Ao longo de sua vida, trabalhou pela preservação da doutrina da Igreja, na qual ele viu limites às reformas, mas também possibilidades de reforma. Sua renúncia ao cargo permitiu que a Igreja começasse de novo – e não só na forma concreta de seu sucessor.

A Igreja Católica não pode mais recuar nesse despertar, nessa reforma, e ainda assim cada pequeno passo parece lhe ser tão difícil. E porque tanta coisa parecia e parece esclerosada no sistema, Bento 16 agiu em 2013 de uma forma simplesmente revolucionária.

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Christoph Strack é redator da DW e especialista em religião. O texto reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.

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