‘Pensei que me matariam’: a história do 1º gay a sair do armário no Catar

Depois de viver escondendo homossexualidade por boa parte da vida para sobreviver, ele decidiu sair do armário para denunciar...

revistabaiacu - 23 de junho de 2022
‘Pensei que me matariam’: a história do 1º gay a sair do armário no Catar



Nas Mohamed teve que manter a homossexualidade em segredo por muitos anos para sobreviver no Catar, país onde nasceu, apesar de “saber disso desde pequeno”.

“Lembro que eu tinha uns 11 ou 12 anos e já pensava nisso, mas não sabia o que realmente significava ser gay”, diz ele, que hoje tem 35 anos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

“Não tinha acesso a nada. Não tinha internet, não tinha comunidade gay na minha cidade e não estava exposto a nada. Não entendia o que estava acontecendo comigo.”

Inicialmente, ele decidiu ignorar e reprimir quaisquer pensamentos relacionados a sexo e sua orientação sexual.

Preferiu se concentrar nos estudos da faculdade de medicina e na religião; era uma pessoa “extremamente religiosa”, que sabia o Alcorão de cor.

Assim, ele passou sua adolescência e os primeiros anos da vida adulta — durante os quais teve apenas de ignorar os conselhos de que deveria arrumar uma esposa.

“Muitos de nós somos pressionados a nos casar muito jovens, às vezes antes dos 20 anos. Para mim, o mais difícil foi tentar resistir à pressão ao meu redor para me casar”, revela.

“Tinha que dar uma boa razão para não querer me casar, para que não suspeitassem.”

Foi durante uma viagem a Las Vegas, aos 22 anos, que ele confirmou que era “definitivamente” gay. Em uma boate LGBT+, ele se sentiu realmente livre pela primeira vez.

“Percebi que não tinha nenhum tipo de tendência ou desejo de fazer sexo heterossexual. Fiquei em choque. Comecei então a ler e aprender mais sobre mim e o que significava ser homossexual”, diz ele.

Mas depois de voltar ao Catar, ele teve de reprimir completamente o desejo sexual que havia despertado nele.

“Eu vivia com um medo constante. Pensei que me matariam se soubessem que sou gay, se isso se tornasse público. Os crimes de honra são muito tribais no Catar. Algumas famílias fazem isso, outras não, e o governo tenta não intervir.”

Ao terminar a graduação em 2011, aos 24 anos, Nas tomou a decisão de se mudar “temporariamente” para os Estados Unidos, onde passaria três anos fazendo residência para concluir sua formação profissional como médico.

Nunca mais voltou.

Após concluir sua residência em um hospital em Connecticut e uma bolsa de pesquisa no Estado da Pensilvânia em 2015, ele solicitou asilo na Califórnia, dizendo que seria perseguido em seu país por causa de orientação sexual.

Mas antes de pedir asilo, ele ligou para os pais para explicar por que não voltaria ao Catar.

“Confessei a eles que era gay e que não me sentia seguro em casa, que não achava que poderia voltar. Tivemos uma grande briga e depois conversamos mais algumas vezes, mas nunca acabava bem”, explica Nas.

Ele conta que, infelizmente, o relacionamento com os pais terminou naquele primeiro telefonema.

“Por tradição e vergonha, imagino que eles inventaram uma história para o resto da família. Não sei o que contaram a eles, mas acho que agora todos sabem o verdadeiro motivo da minha saída, graças às minhas entrevistas.”

Nas Mohamed ganhou notoriedade neste ano depois de falar publicamente sobre sua homossexualidade.

Muitos deram a ele o título de “1º catariano a sair publicamente do armário”, depois de conceder entrevistas a diferentes meios de comunicação.

Ele explica que decidiu sair do armário agora justamente porque a Copa do Mundo, que acontece no fim deste ano no Catar, colocou os holofotes sobre este país e sobre todas as denúncias de abusos de direitos humanos e de minorias que são regularmente reportadas no Estado árabe.

No início do ano, Nasser Al Khater, executivo-chefe da Copa do Mundo FIFA 2022 no Catar, garantiu em entrevista coletiva que todos os torcedores serão bem-vindos no Catar, desde que respeitem as tradições do país.

“Gostaria de garantir a qualquer torcedor, de qualquer gênero, orientação (sexual), religião ou raça, que tenha certeza de que o Catar é um dos países mais seguros do mundo e todos são bem-vindos aqui”, disse ele.

“As demonstrações públicas de afeto são mal vistas, não fazem parte da nossa cultura, e isso se aplica a todos.”

Mas várias associações, como a European Gay & Lesbian Sport Federation, reclamaram que as garantias de segurança para pessoas LGBTQ+ no Catar continuam inadequadas meses antes do início da Copa do Mundo.

Nas afirma que não saiu do armário para contar sua própria história, mas para tornar conhecida a de todos os membros da comunidade LGBT+ no Catar.

“É muito perigoso sair do armário quando você é catariano, e estou me preparando para isso há meses”, completa.

Ele conta que, por meio do seu trabalho recente como porta-voz da comunidade LGBT+ no Catar, percebeu o quão grande é a comunidade em seu país natal.

Mas todos ocultam sua sexualidade e têm medo de falar sobre o assunto ou confessar a alguém.

Segundo ele, isso acontece porque a polícia do Catar tem uma equipe dedicada a “caçar” pessoas LGBT+ — e quando encontram um membro da comunidade, pegam seu telefone e vasculham seus contatos para tentar localizar outros.

“Conheço gays que nem sequer sabem que outras pessoas próximas ao seu círculo são (gays), pois é muito perigoso para uma pessoa LGBT+ conhecer outra.”

Ser gay é ilegal no Catar.

De acordo com o artigo 296 do seu código penal, as penas para relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo variam de 3 a 5 anos de prisão a até pena de morte — embora não haja provas de que penas de morte tenham sido aplicadas para relações sexuais consensuais realizadas de forma privada entre adultos do mesmo sexo.

Nas afirma que dentro da comunidade gay do Catar reina a censura e nada é transparente, mas ele garante que nem todos vivem sob as mesmas condições.

“Há pessoas LGBT que vivem bem. São uma minoria de sorte, porque são muito ricas, com famílias muito grandes, e são aceitas a partir do princípio que tem que ser um segredo de família.”

Mas ele acrescenta que até mesmo estas pessoas vivem com muitas limitações em relação ao que podem fazer — e algumas costumam ter problemas de saúde mental.

“Muitos de nós não tivemos a mesma sorte, e coisas horríveis aconteceram conosco.”

Nas afirma que, embora não more mais no Catar, ainda teme por sua vida. Ele recebeu uma enxurrada de insultos e ameaças de morte depois de tornar pública sua homossexualidade.

“Mesmo morando aqui em San Francisco (na Califórnia) não me sinto seguro. Porque há muito ódio e violência contra nós”, acrescenta.

Ele teve que fechar quase todas as suas redes sociais para reduzir o número de mensagens de ódio que recebe diariamente, com exceção de uma conta do Instagram que usa como plataforma para seu ativismo.

Mas assim como chegam mensagens de ódio, ele também recebe agradecimentos.

“Me agradecem por ser a voz de muitas pessoas que não podem falar. Muita gente da comunidade LGBT+ e muitos aliados de todas as classes sociais no Catar entraram em contato comigo.”

O governo dos EUA concedeu asilo a Nas em 2017 após uma intensa batalha judicial.

Desde 2015, ele fez de San Francisco sua casa e diz que nunca poderia voltar ao Catar.

“Sem dúvida alguma me maltratariam na chegada. Acho que minha própria família me mataria pelo que estou fazendo. Há pessoas me dizendo no Instagram que, se eu pisar lá, vão me ajudar a conhecer Alá”, afirma.

Ele acrescenta que também pode ser processado pelo governo do Catar por “infringir a lei”.

Nas espera que sua história sirva para informar muita gente sobre o quão “atrasada” a sociedade do Catar é em termos de liberdades e direitos da comunidade LGBT+.

E faz um apelo aos estrangeiros que visitarão o Catar durante a Copa do Mundo para que não se escondam, pois insiste que a visibilidade é importante.

Ele também espera que isso sirva para que outros catarianos gays e transexuais tenham histórias documentadas para mostrar como evidência se planejam buscar asilo em outros países onde possam viver livremente.

“Somos uma população que precisa de ajuda e apoio. O que está acontecendo no Catar não afeta apenas os catarianos, mas a comunidade LGBT+ em todo o mundo”, observa.

“Precisamos que nossos direitos sejam universalmente respeitados, que onde quer que formos sejamos tratados com igualdade e como seres humanos com direitos, não como criminosos. Precisamos de mais vozes.”

‘Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61894518