Prates, indicado para a Petrobras, é visto como conciliador, mas política de preços deve ser desafio

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Prates, indicado para a Petrobras, é visto como conciliador, mas política de preços deve ser desafio

Futuro presidente tem planos de transformar a estatal em uma empresa integrada de energia, com forte presença em fontes renováveis, como vêm fazendo petroleiras estrangeiras como Shell, Total e Equinor.

Prates, indicado para a Petrobras, é visto como conciliador, mas política de preços deve ser desafio
Imagem: Reprodução | Divulgação



RIO – O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou hoje o nome do senador Jean-Paul Prates (PT) para a presidência da Petrobras. O Estadão/Broadcast antecipou no dia 31 de outubro a escolha para a estatal do nome de Prates, que agora precisa passar pelo crivo dos órgãos internos de governança da petroleira.

Nos bastidores, Prates liderou a corrida pelo comando da estatal desde o resultado das eleições. Depois de iniciada a transição de governo, ele assumiu a coordenação do subgrupo de petróleo e gás e, nos últimos dias, superou desconfianças de alas do PT sobre a viabilidade do seu nome para a Petrobras ante a Lei das Estatais.

Ao contrário do que reza a cartilha para quem atua em transições de governo, o senador se colocou como o nome mais forte para a Petrobras desde o primeiro momento. Abriu sua visão para o futuro da empresa em entrevistas e artigos à imprensa, momentos em que revelou simpatia por uma entrada forte da estatal em fontes de energia renováveis, diversificação de portfólio e ampliação da capacidade de refino.

Com acesso direto a Lula, Prates recebeu o apoio de correntes internas do PT e da cúpula da Federação Única dos Petroleiros (FUP), maior entidade sindical da categoria e voz importante na indicação do representante dos funcionários no Conselho de Administração da estatal, uma das 11 cadeiras do colegiado, que já conta com seis indicações do governo.

Não bastasse, o senador colecionou apoios fora do novo governo, ganhando o respaldo de colegas no Congresso Nacional, além de executivos e conselheiros da própria Petrobras e do setor de óleo e gás. Para essas fontes, Prates era o mais indicado ao cargo entre os nomes especulados por acumular conhecimento técnico e habilidade política. Ele é frequentemente descrito como “moderado e conciliador”.

“Jean-Paul (Prates) está envolvido com a indústria do petróleo desde antes do fim do monopólio. Participou e acompanhou a evolução do setor, e sabe o que é necessário para que uma empresa de petróleo, gás e energia seja exitosa”, disse o ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) nos governos Michel Temer (MDB) e Bolsonaro (PL), Décio Oddone, hoje presidente da petroleira independente Enauta.

Opinião semelhante tem o diretor da ANP no governo Fernando Henrique, David Zylberstein. “Ele (Prates) não é um estranho no ninho. Em relação às últimas indicações para a Petrobras, inclusive, é o que tem mais proximidade com segmento de óleo e gás.”

Prates tem planos de transformar a Petrobras em uma empresa integrada de energia, com forte presença em fontes renováveis, como vêm fazendo petroleiras estrangeiras como Shell, Total e Equinor.

Em meio à transição energética, a empreitada é bem avaliada por especialistas como Zylberstein e o ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que atuou ao lado do senador na transição.

Tocar um plano desse vulto em paralelo ao desenvolvimento da frente de exploração e produção de petróleo vai exigir volume de investimentos incompatível com os atuais super dividendos pagos a acionistas.

No curto prazo, porém, o desafio de Prates à frente da Petrobras será honrar o compromisso de campanha de Lula de “abrasileirar” os preços dos combustíveis sem causar grandes choques ao mercado que levem a desequilíbrios e ameaça de desabastecimento. Hoje o Brasil importa entre 20% e 30% do diesel que consome e reduções abruptas nos preços praticados pela Petrobras desestimulam importadores privados.

Prates tem indicado a intenção de ampliar a capacidade de refino da Petrobras, mas acredita, principalmente, em soluções de Estado, como a criação de um fundo estabilizador de preços.

Ex-diretores gerais da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis (ANP), como Zylberstein, Oddone e Magda Chambriard, que esteve cotada para a Petrobras, são céticos em relação a essa estratégia, porque seria de difícil execução e consumiria recursos públicos com possíveis destinações sociais mais nobres.

Para a política de preços de combustíveis, diz Zylberstein, em que pese a competência técnica de Prates e a visão de futuro coerente com a transição energética, ele segue uma “incógnita”.

“Neste ponto (preços) ele é uma incógnita. Temo artificialismos que prejudiquem a lógica de mercado, mas falo sob ressalva, porque não parece haver nada definido”, diz o ex-diretor geral da ANP.

Especificamente sobre o PPI, Prates tem indicado a interlocutores que não planeja exatamente a sua extinção, mas sim adaptações a partir da mudança de parâmetros para evitar exposição à volatilidade do mercado externo e ajuste de valores à realidade de cada região do País.

Jean Paul Prates é carioca e tem 54 anos. Ele se formou em Direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e em Economia pela PUC-RJ. Depois, fez mestrados em planejamento energético e gestão ambiental pela Universidade da Pensilvânia (EUA), e em Economia de Petróleo e Motores pelo prestigiado Instituto Francês do Petróleo (IFP), com sede em Paris.

No fim dos anos 1980, Prates teve passagem pela assessoria jurídica da Petrobras Internacional, a Braspetro. Depois, em 1991, fundou uma das primeiras consultorias especializadas em petróleo, que chegou a ter 120 consultores associados. Atuou como consultor de energia até 2018.

Embora tenha dado contribuições à redação da Lei do Petróleo, de 1997, e depois à criação do Contrato de Concessão e ao desenho da ANP, conforme assinala Zylberstein, Prates só ingressou formalmente na vida pública no início dos anos 2000, no Rio Grande do Norte.

Então, elaborou um plano de planejamento energético para o governo do estado, onde depois se tornou secretário de energia. Em sua gestão, ele afirma ter atraído para a região mais de R$ 10 bilhões para investimentos ligados à energia, inclusive eólica. Filiado ao PT, fez carreira política e, em 2019, assumiu mandato como senador porque era o 1.º suplente de Fátima Bezerra (PT-RN), que deixou o Congresso para ser governadora, novamente com atuação dedicada ao setor energético.

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