PSDB longe do poder: por que o partido tucano encolheu em SP

PSDB longe do poder: por que o partido tucano encolheu em SP Confira!

PSDB longe do poder: por que o partido tucano encolheu em SP

Fora do Palácio dos Bandeirantes pela primeira vez em 28 anos, partido quer voltar às bases para recuperar relevância; crise, no entanto, pode levar senadora Mara Gabrilli a deixar a sigla

PSDB longe do poder: por que o partido tucano encolheu em SP
Imagem: Reprodução | Divulgação



O PSDB encerra neste domingo quase três décadas de poder em São Paulo sem uma liderança paulista forte e cada vez mais distante das decisões nacionais. A vitória de Tarcísio de Freitas (Republicanos) não apenas pôs fim à era tucana como deixou o partido refém de alianças para se manter influente no Estado que lhe deu sete vitórias eleitorais consecutivas, desde Mário Covas.

Após obter 18,4% dos votos válidos em sua tentativa de reeleição, o futuro do atual governador, Rodrigo Garcia, é incerto. Filiado ao PSDB apenas para disputar o pleito, o tucano que fez sua vida política no antigo DEM tem dito que fica, mas sem a garantia de liderar qualquer processo de reestruturação interna – o plano é deixar o País em 2023 para estudar.

Ao apoiar o presidente Jair Bolsonaro no pleito nacional, Garcia expôs os recorrentes rachas tucanos, antecipou a saída de João Doria da sigla, que já havia perdido Geraldo Alckmin (eleito vice-presidente pelo PSB) e nem sequer conseguiu eleger José Serra como deputado federal. Sem os chamados cabeças brancas, os tucanos de São Paulo têm hoje na senadora Mara Gabrilli sua principal representante. Mas até ela pensa em deixar a sigla.

“Vejo como obscuro o futuro do partido. Nem mesmo eu tenho certeza se fico. O PSDB acaba desrespeitando os próprios tucanos, que não são ouvidos. Essa eleição foi muito injusta, vi muita gente perdendo a calma. E, nós, na eleição presidencial, não tivemos apoio”, afirmou, em referência à sua candidatura a vice na chapa de Simone Tebet (MDB). “O que mais desanima no PSDB são as disputas internas. É muita vaidade.”

Filiada desde 2003, a ex-vereadora, ex-deputada e atual senadora diz que defenderá os legados tucanos a partir de janeiro para que o Estado, com Tarcísio, não tenha rupturas em políticas de sucesso, mas sem a certeza de permanecer na sigla.

“Serra não foi eleito, Fernando Henrique se distanciou da política, Garcia vai sair do Brasil. Além disso, o João e o Alckmin já saíram. Não está favorável seguir no partido. Estou pensando, avaliando possibilidades e o quanto vale a pena ficar.”

As vaidades citadas por Mara se revelaram em lutas fraticidas que ajudaram a reduzir o peso do partido nos últimos anos, de acordo com professora de ciência política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, (Fesp). O racha se acentuou com a eleição de Doria, em 2018, colado na imagem do então candidato Bolsonaro.

Naquele ano, a eleição já foi a mais apertada, com o ex-prefeito saindo-se vitorioso na disputa contra Márcio França (PSDB) no segundo turno e com uma diferença de 741 mil votos. Depois disso, o avanço da direita mais radical acabou por diminuir a sigla especialmente em São Paulo, que fez apenas três deputados tucanos em outubro.

No ano passado, mais desavenças levaram o partido a realizar uma prévia nacional para definir seu candidato à Presidência da República. Em vão. João Doria venceu, mas não levou. Em meados deste ano, a sigla decidiu que não teria representante na disputa, pela primeira vez desde sua criação.

“Com a perda do governo paulista, o partido fica ainda mais fragilizado e agora terá de se voltar mesmo para suas bases”, afirma Tathiana. Para o cientista político Bruno Silva, diretor de projetos do Movimento Voto Consciente, a perda do Estado reduz automaticamente a relevância do PSDB. “Estar à frente de São Paulo conferia importante peso político à sigla, oferecendo-lhe condições de produzir lideranças com alavancagem nacional”, diz.

Fora do Palácio dos Bandeirantes depois de 28 anos, a sigla tem pela frente um cenário de incertezas, segundo Bruno, e não apenas em São Paulo, já que ainda não se sabe se o governador reeleito do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, terá apoio interno e força política para liderar o partido e recolocá-lo entre os mais relevantes do País. A ala paulista já contesta sua indicação.

No ninho paulistano, as incógnitas se multiplicam. Com a morte precoce de Bruno Covas, reeleito prefeito da capital em 2020, o partido está preso ao governo de Ricardo Nunes (MDB) e, mesmo que rompa o acordo com ele, não tem potenciais candidatos para a disputa municipal.

Covas era a liderança tucana mais relevante na capital. Eleito vice de Doria, em 2016, o neto de Mário Covas havia conseguido se descolar do antecessor e caminhava para um futuro mais ambicioso no cenário político nacional. Sem ele, e com Tarcísio no comando do Estado, o partido deve disputar mais uma vez o eleitorado de São Paulo com representantes do bolsonarismo daqui a dois anos.

Para acentuar a crise, o PSDB também não conta com lideranças populares na Assembleia Legislativa ou na Câmara Municipal de São Paulo. Com bancadas reduzidas, resta ao partido compor forças para alcançar lugar nas Mesas Diretoras. Na Alesp, a eleição de Tarcísio, por exemplo, coloca em risco o domínio tucano na presidência da Casa.

Mesmo sem citar um nome, o presidente estadual da sigla, Marco Vinholi, diz que o PSDB tem sim lideranças altamente qualificadas que ajudarão a legenda a “dar uma guinada em direção ao resgate e fortalecimento das suas raízes”. Segundo o dirigente, o plano é estar mais próximo do que classifica com o “pulsar das ruas”, dos movimentos sociais, da sociedade civil organizada, da academia e do povo”.

Segundo Vinholi, após deixar o cargo, Garcia terá uma importante liderança neste contexto, junto com prefeitos, deputados e lideranças que integram o partido em São Paulo. “Nos próximos dois anos, devemos ampliar nosso diálogo com a sociedade, valorizar a militância e a democracia interna do partido e, sobretudo, nos apresentarmos com clareza de posições para a opinião pública”, disse.

O dirigente destaca feitos dos governos tucanos como um legado a ser valorizado. “O PSDB construiu junto com a população um Estado muito melhor. Das ações de responsabilidade fiscal implementadas por Mario Covas chegando até João Doria e Rodrigo Garcia, passando pelo municipalismo herdado de Montoro melhoramos nosso IDH, nos tornamos um Estado mais seguro com menor numero de crimes contra a vida no Brasil, aumentamos a expectativa de vida das pessoas em 7 anos, universalizamos o ensino fundamental. As melhores rodovias do país, 50 novos hospitais, triplicamos as escolas técnicas do Centro Paula Souza. Avançamos na despoluição do Rio Pinheiros, deixamos um Estado com obras por todos os cantos e com o caixa em ordem.”

Para o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT), no entanto, não há legado a ser comemorado ou defendido pelos tucanos em São Paulo. O petista cita problemas em diversas áreas fundamentais, como saúde, educação e segurança. “Nas principais áreas não temos o que comemorar em quase 28 anos de PSDB. Há ausência de professores, dificuldades no enfrentamento ao crime organizado e repasse de recursos às organizações sociais da saúde sem um retorno satisfatório.”

A defesa dos feitos tucanos ficará mais difícil, segundo Tathiana Chicarino, sem o controle da máquina estadual. A tendência, admitida pelos próprios tucanos, é que a capilaridade do partido pelo interior do Estado seja colocada à provada a partir de 2023.

Principal operador político de Tarcísio, o ex-prefeito Gilberto Kassab bloqueou a presença de tucanos na nova gestão em São Paulo e planeja uma ofensiva sobre os prefeitos do PSDB no Estado. Presidente nacional do PSD, Kassab será secretário de Governo, cargo responsável pela articulação com deputados estaduais e prefeituras.

Outra dificuldade diz respeito ao controle nacional da sigla. A indicação de Leite não é consenso entre os tucanos paulistas, mas o governador gaúcho já se movimenta no Estado em busca de apoio.

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